Jovens podem ter perdas bilionárias com a pandemia no futuro

As circunstâncias impostas pela covid-19 à educação no mundo inteiro, junto à falta de engajamento dos jovens com o ensino remoto e a evasão escolar no Brasil, estão provocando perdas significativas de ensino que – se não mitigadas rapidamente – vão se traduzir em perdas econômicas bilionárias para uma geração inteira de crianças brasileiras.

A estimativa é do estudo Perda de Aprendizagem na Pandemia, publicado pelo Insper e pelo Instituto Unibanco – e seus autores pedem ações urgentes tanto no controle da pandemia quanto em um compromisso social para evitar que a defasagem da educação da geração atual se converta em um problema permanente, tanto na vida futura dessas crianças quanto na produtividade de todo o país.

Liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros, o estudo traça um modelo, a partir de parâmetros nacionais e internacionais de aprendizagem tradicional versus remota e a partir do engajamento dos alunos com o ensino, para estimar o quanto os estudantes brasileiros perderam (e seguem perdendo) em conhecimento e renda futura, por conta das disrupções causadas pela pandemia de covid-19.

O foco principal da pesquisa é nos estudantes que concluíram o 2° ano do ensino médio em 2020 e iniciaram o 3° ano em 2021 – e que, portanto, têm pouco tempo restante na educação básica para que possam ter sua aprendizagem recuperada.

Qualidade da aprendizagem dos alunos comprometida em 2020

A conclusão é de que esses jovens perderam, ao longo de 2020, proficiência em matemática equivalente a 10 pontos na escala Saeb (avaliação nacional que mede, periodicamente, o desempenho dos alunos). Em língua portuguesa, a perda estimada é de 9 pontos.

Isso equivale a quase a metade do que um aluno tipicamente aprende em português ao longo de todos os três anos de ensino médio e a dois terços de tudo o que ele aprende em matemática nessa etapa de ensino.

Se nada for feito, a perda dos alunos que cursam o 3° ano em 2021 pode chegar, ao final de 2021, a mais da metade de todo o aprendido em português e praticamente à totalidade do que seria aprendido em matemática no ensino médio.

Perda econômica no futuro

“As pessoas serão menos produtivas, e vão ganhar menos porque vão produzir menos”, explica Paes de Barros à BBC News Brasil. “Portanto, o PIB (Produto Interno Bruto, ou total de bens e serviços produzidos pelo país) vai ser menor. Elas perdem e o país perde.”

O tamanho dessa perda vai depender do quanto o país investir e agir para recuperar a aprendizagem perdida, diz ele. Mas, caso nada seja feito, os cálculos de Paes de Barros estimam que cada criança com ampla defasagem de aprendizagem na pandemia poderá ter uma perda de renda de R$ 20 mil a R$ 40 mil ao longo de sua vida.

Extrapolando isso para todo o conjunto de estudantes dos ensinos fundamental e médio que estão tendo seu ensino descontinuado, chega-se a uma perda coletiva futura de renda de R$ 700 bilhões, podendo chegar a R$ 1,5 trilhão caso nada seja feito para mudar essa trajetória.RÉDITO,

Esses R$ 700 bilhões potenciais equivalem, nos valores atuais, a muito mais do que o país já perdeu economicamente com a crise sanitária da covid-19 no ano passado:

“O valor da queda na remuneração futura decorrente da perda de 10 pontos de proficiência durante a pandemia em 2020 é o dobro do valor social (R$ 350 bilhões) dos quase 200 mil óbitos por covid-19 também ocorridos em 2020 no país”, diz o estudo.

Formas de minimizar as perdas

Embora algumas perdas ocorridas em 2020 tenham sido consideradas por Paes de Barros inevitáveis – no Brasil e no mundo inteiro – por conta da necessidade de interromper o ensino presencial e da tradicional menor eficiência do ensino remoto, outras poderiam (e ainda podem) ser mitigadas.

Os cálculos do economista estimam que ainda será possível evitar de 35% a 40% das perdas de ensino (e consequentemente de renda) caso se dobre o envolvimento dos alunos com o ensino remoto, se promovam ações mais intensas para evitar que os alunos desistam da escola e se aumentem as oportunidades de aprendizagem – por exemplo, com iniciativas de recuperação dos alunos, ações criativas para otimizar o ensino, além da adoção, a partir do segundo semestre, do ensino híbrido (ou seja, abrir as escolas para o ensino presencial, mesmo que apenas parcialmente, desde que haja circunstâncias sanitárias viáveis para tal).

O urgentíssimo são os alunos do ensino médio, porque eles não têm muito tempo (restante na educação básica). Mas esta pandemia atravessa uma geração inteira, desde os que estão na educação infantil até aos 20 anos de idade.

Um dos elementos que balizaram os resultados do estudo foi a constatação, pela pesquisa Pnad Covid do IBGE, de que o grau de engajamento dos estudantes do ensino médio com o ensino remoto nas redes estaduais foi de, em média, 36% – ou seja, aproveitou-se pouco mais de um terço das horas letivas ministradas remotamente nessas redes.